A gira da Tabatinga é um exemplo de herança cultural passada oralmente.
Penso que a língua não é utilizada em Bom Despacho porque a mesma traz questionamentos quanto a história oficial da cidade, história essa que explicou que Bom Despacho foi fundada por três portugueses que fizeram uma promessa à chamada Nossa Senhora do Bom Despacho ou Nossa Senhora do Sol ao chegarem a uma das três colinas que constituem, ainda, o núcleo da cidade.
A presença da gira da Tabatinga mostrou-nos que, antes de ser habitada por brancos portugueses, a região foi refúgio de negros fugidos das regiões de mineração situadas próximo a Belo Horizonte e Pitangui. Portanto, a língua seria um indício decisivo de que a cidade foi primeiramente um quilombo. Aliás, vale a pena frisar que a presença dos negros fugidos, neste período, motivou a chegada dos brancos portugueses, muitos dos quais, tendo vindo no encalço dos quilombolas, resolveram, permanecer na região.
Trata-se de um exemplo de uma língua oral transmitindo palavras que minam, arruínam, põem abaixo uma versão que claramente foi a dos vencedores e a chamada história oficial. O mesmo recalque ou superposição da história das vítimas pelo nome dos mais poderosos verificou-se estar em ação ainda hoje, ao lembrarmos da troca do nome do bairro de Tabatinga para Ana Rosa, nome da esposa de um ex-prefeito e nome de uma granja situada na região.
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