A Gira e a Marginalidade

Para este trabalho o  diálogo com as fontes orais fornece um posicionamento diante do estatuto do conhecimento histórico. A construção da memória pela sua formação, manutenção e elaboração das identidades individuais e coletivas, veiculada pela oralidade, expressa as várias faces da  experiência humana ao longo do processo histórico, estabelecendo relações e mediações com outros tipos de registro do real.

A Gira da Tabatinga foi uma herança paterna para Dona Fiota, quem sabe a única. Sua mãe foi a responsável pela transmissão para a criança da língua herdada do pai. Vale ressaltar que o filho do sexo masculino negou a língua do pai, acolhida apenas pela filha.

Dona Fiota, apesar das dificuldades observava certo avanço histórico (“Hoje quem falar do preto, acho que o viriango caxa, né?” O que quer dizer: “Hoje quem falar do preto, acho que o policial prende, né?”) e permaneceu firme no desejo de recuperar a parte de suas tradições que foi apagada, no caso, o próprio nome do bairro, Tabatinga, substituído por Ana Rosa.

Muitos em Bom Despacho repetem palavras na língua (“cuete ocora” e “cuete cafuvira”, sinônimos de “negro”), mas não se interessam pelo bairro. A discriminação e o preconceito com relação aos falantes da “língua do negro da costa” é algo perceptível na cidade. A prefeitura já realizou cursos com o intuito de difundir a língua, mas após a desistência de alguns membros da comunidade, verifiquei que existiam alunos interessados na alfabetização, mas que resistiam à língua da Tabatinga, tida por esses desistentes como “bobagem” e “coisa de vagabundos, malandros”. O motivo seria que, por fornecer um código de difícil decodificação para aqueles situados fora da comunidade, a gira despertou desconfiança.

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